Caetano Veloso
reúne artigos
sobre música,
cinema, teatro,
literatura e
Brasil em seu
novo livro, 'O
mundo não é
chato', diz que
é uma caricatura
de intelectual,
ataca a
imprensa, como
de hábito, e
admite que quer
Lula fora do
governo desde
antes de sua
posse.
O Caetano Veloso
escritor - que
está lançando O
mundo não é
chato, coletânea
de textos que a
Companhia das
Letras manda
hoje para as
livrarias - é o
polêmico falante
de sempre. Com
garras de
tigresa mais que
afiadas,
orgulha-se de
poder dizer e
escrever o que
pensa sem dar
satisfação a
ninguém. "Sou
uma espécie de
caricatura de
intelectual",
diz o cantor e
compositor
baiano de 63
anos.
No livro
organizado pelo
poeta Eucanaã
Ferraz, trata do
Brasil, de
música e de
discos, de
cinema, teatro,
literatura, e de
sua vida fora do
país, entre
outros temas. Na
entrevista
abaixo, Caetano
vai além: fala
do presidente
Lula, de Carmen
Miranda, do
escritor cubano
Cabrera Infante,
do seu filme
"injustiçado" O
cinema falado,
filmado em 1986
e lançado em
2004. Além de
tudo, bate duro
na imprensa e,
em especial, na
chamada patota
do Pasquim,
jornal no qual
ele escreveu
inúmeros artigos
que estão no
novo livro.
Chama a atenção
o tema "Brasil"
aparecer em
primeiro lugar
na organização
do livro. Revela
a maneira como
você se destaca,
ou procura se
destacar, na
vida pública. Há
reflexões densas
sobre o país,
não só pelas
referências de
autores, mas
pela tentativa
de elaboração
teórica.
É uma posição
deliberada?
- Considero
essas
manifestações
mais teóricas -
que foram
descritas por
você de uma
maneira um tanto
quanto
hiperbólicas
(ri) - como uma
espécie de
efeito colateral
da minha
profissão
artística, que,
por sua vez, é
uma profissão da
área do
entretenimento.
O que você disse
talvez esteja
certo, mas
também faço uma
autocaracterização
num dos artigos.
Refiro-me ao
fato de que sou
uma espécie de
caricatura de
intelectual. Eu
digo que nunca
houve no Brasil
alguém tão
popular com
tanta pinta de
intelectual.
Isso foi o que
sempre definiu
minha posição na
vida pública. Um
trabalho sério,
de alguém que se
preparou para
fazer ensaios
sobre a
realidade
brasileira,
sobre as nossas
possibilidades
históricas, não
é uma coisa
totalmente ao
meu alcance.
Mas há um texto
originado de uma
conferência no
MAM (Museu de
Arte Moderna),
que é uma
tentativa clara
de elaboração
teórica sobre o
país.
- Escrevi aquilo
para nunca ser
lido, mas para
falar na hora
uma série de
coisas que, ao
serem ouvidas,
pudessem ficar
na cabeça das
pessoas. Sou um
artista popular.
Entendo que, de
fato, há também
um gosto
intelectual
desde garoto.
Meus artigos com
18, 20 anos, são
muito
reflexivos,
apresentam certa
densidade e uma
ambição natural
de querer
pensar, embora
sem me preparar
e ter muitos
instrumentos à
mão. Sou
temerário quanto
a me dispor a
elaborar
pensamentos sem
estar tão bem
municiado,
embora leia, mas
muito
desorganizadamente,
ao sabor do
acaso.
Há uma crença
subjetiva no
Brasil, na
elaboração
teórica.
Refere-se a um
pessimismo
profundo, mas
seus textos são
otimistas.
- Essa crença
não é
necessariamente
otimista. Além
disso, não há
uma constância
em minha crença
no Brasil. Mas
há uma
considerável
resistência
dessa vontade.
Outro ponto é
que, quando digo
"eu quero", não
é tão pessoal,
embora eu também
queira.
É como se
fosse um convite
aos outros
brasileiros para
saberem que
temos uma série
de elementos
para apresentar
ao mundo, uma
hipótese social
original na
prática. Não é
uma questão de
otimismo, mas de
reconhecimento e
de constatação
da nossa
oportunidade.
Somos um país de
dimensões
continentais, no
Hemisfério Sul,
na América, no
Terceiro Mundo,
altamente
miscigenado e
que fala
português. São
muitas
características
que formam uma
obrigação de
originalidade
que temos de
exercer. A minha
proposição, o
"eu quero", é
que façamos
dessa
originalidade um
gesto de sujeito
e não apenas
exibição de
objeto.
O risco é cair
na desesperança,
não? Vivemos
sempre sob a
premissa de
sermos "o país
do futuro", que
nunca se
concretiza.
- O livro do
Stefan Zweig
(Brasil, país do
futuro, de 1941)
é um desses
momentos em que
o mundo diz, com
clareza, que
percebe a
originalidade do
Brasil.
Engraçado
falarmos sobre
isso.
Anteontem, vi
aquele filme,
Copacabana, com
a Carmen Miranda
e o Groucho
Marx. Fiquei de
madrugada vendo
e muitas coisas
vieram à cabeça.
Tem uma hora em
que um americano
babaca canta,
rimando bolero
com Rio de
Janeiro. É muito
engraçado, mas
provoca na gente
um misto de
vergonha e
orgulho de que
falo num artigo
do livro. Me
lembra o Cabrera
Infante
(escritor
cubano, morto
este ano). Em
Três tristes
tigres, ele fala
de uma coisa
que, para os
cubanos, era um
sonho da coisa
maravilhosa, uma
noite no Cassino
da Urca com a
Carmen Miranda
se apresentando.
E, no entanto,
tanto o Brasil
quanto Cuba
chegaram a ter
vergonha da
Carmen Miranda.
E com razão,
embora todos
possamos nos
orgulhar dela.
Você nunca
pensou em fazer
algo em prosa
parecido com o
que o Cabrera
Infante fez?
- A vontade que
eu tive foi
fazer o filme
inspirado
naquela
estrutura de
pessoas falando.
Cada capítulo é
uma pessoa
falando um
negócio longo.
Há sessões de
psicanálise, uns
literatos com
uma falação meio
retórica, umas
menininhas
embaixo do
caminhão falando
sacanagens, cada
um tem um jeito
de falar, e ele
parodia.
O que é
parodiado no
filme O cinema
falado é,
sobretudo, um
filme chamado O
desafio (de
1965), de Paulo
César Saraceni.
É um filme
interessantíssimo
e esquecido. Mas
é muito ridículo
porque as
pessoas falam
coisas teóricas.
Terra em transe
também é assim.
É como se fosse
O desafio salvo
pela genialidade
do Glauber.
Minha idéia em O
cinema falado
era fazer um
filme como o
Cabrera Infante,
pegando essa
coisa bem
ridícula do
Desafio.
E foi aí que o
filme chocou.
- Foi. Mas o
pessoal do
cinema não
desgostou muito
do filme. Por
uma razão muito
simples. Os
críticos gostam
e conhecem
cinema.
E onde houve a
resistência?
- Por exemplo,
na Folha de S.
Paulo, o crítico
gostou do filme.
Mas o
editor-chefe não
gostou e não o
deixou escrever.
E escreveu uma
crítica
horrorosa. Ele e
algumas pessoas
que faziam filme
atacaram. Arthur
Omar, que fazia
uns filmes
experimentais,
gritou, xingou,
fez o diabo
durante a
projeção. E umas
três mulheres
foram convidadas
pela Folha para
falar mal de
mim. Ninguém se
dispôs, mas
essas três
mulheres se
dispuseram. Acho
que era porque
eram mulheres
(ri).
Como assim?
- Um dia te
explico (ri). As
três miseráveis
aceitaram falar
mal do filme,
confessando,
vejam só, que
não tinham visto
o filme e nem
queriam ver. E
eles deram
primeira página.
Um horror. Tipo
"cada macaco no
seu galho",
"Caetano é um
urubu das
vanguardas". Mas
o que posso
fazer? São
mulheres,
coitadas (ri).
Só estou fazendo
um número
engraçado,
porque sou
feminista desde
criança (ri).
E o que as
mulheres dizem
quando você faz
essa
"homenagem"?
Algumas costumam
cair na
brincadeira e
reagem?
- Essas são as
melhores (ri).
Você falou em
jornalistas.
Como você avalia
a imprensa? A
crítica cultural
é falha? Há
muita
mediocridade?
- Acho que
melhorou um
pouco.
A primeira
página dos
segundos
cadernos não
estão mais tão
iguais quanto
estavam. Não que
tenha melhorado
tanto, mas mudou
um pouquinho.
Tudo muito
resumido e
igual. Falta um
pouco de
densidade. E é
um pouquinho
como orientação
ao consumidor.
Vale a pena você
gastar seu
dinheiro e
comprar esse
disco. Muito
superficial.
Há no livro
artigos
publicados no
Pasquim, que o
criticou muito.
- Achei que
houve uma coisa
superficial no
fato de terem
mantido uma
imagem de
aprovação a
qualquer coisa
que tivéssemos
feito no exílio,
e tão logo
voltamos eles
relaxaram e
passaram a nos
criticar.
Tanto é que
depois o Jaguar
foi a minha casa
na Bahia, onde
eu morava com
Dedé, e me pediu
desculpas. Disse
que tudo aquilo
tinha sido coisa
do Millôr. O
fato é que o
Millôr, depois
de ter saído do
Pasquim,
escreveu um
negócio
desrespeitoso ao
meu nome e ao da
Dedé.
E o Paulo
Francis fez uma
ironia com um
episódio
ocorrido na
prisão. Ele me
pediu notícia do
Ênio Silveira
(editor da
Civilização
Brasileira). Eu
respondi
brevemente, com
uma ênclise no
texto.
Quando voltei de
Londres, o Tarso
de Castro, que
era o único no
Pasquim que
fechou conosco,
propôs que todos
escrevessem
saudando a minha
volta. O Francis
escreveu uma
brincadeira pelo
fato de eu ter
usado a ênclise.
A ênclise foi
mal empregada?
- Que nada, tá
maluco? (ri). O
problema era a
própria ênclise.
Coisa de
linguagem
coloquial, esse
negócio de ''jornalistice''.
Pena que o
Francis morreu
antes de Verdade
tropical
(primeiro livro
de Caetano, de
1997), pois ali
tem muita
ênclise, muita
mesóclise.
Passado muito
tempo, quando eu
entrevistei Mick
Jagger, ele deu
um coice em mim.
Um típico coice
de jornalista.
Eu então meti o
pé também.
Há má-fé no
jornalismo?
- Essa mistura
de má-fé com
burrice é o
maior problema
do jornalismo. O
sujeito pode ali
agredir, fazer
mal, destruir
relações. O
Paulo Francis
demonstrou esse
tipo de covardia
quando esperou o
Glauber morrer
para começar a
campanha contra
o Cinema Novo.
Eu falei que ele
era uma bicha
travada. Francis
respondeu que eu
devia ser uma
pessoa
desesperada
porque usava o
próprio sexo
como xingamento,
querendo dizer
que usei a
palavra bicha
como xingamento.
E que eu, sendo
bicha e
chamando-o de
bicha, só podia
ser uma pessoa
desesperada.
Depois respondi
de novo e disse
que o xingamento
não estava na
''bicha'', mas
em ''travada''
(ri). Coisa
típica da
geração dele.
Como você
analisa o
tratamento da
imprensa à atual
crise política?
- Acho que a
crise é real e
grande. E é
natural que se
passe por ela.
Não pode haver
desgraça e a
imprensa fingir
que não faz
parte dessa
desgraça. E ela
finge. Põe uma
voz de vestal
acusadora contra
os políticos.
Mas os órgãos de
imprensa não
podem ser
insuspeitos. Têm
seus interesses,
suas ligações
com governos e
grupos
econômicos. Vou
dizer: sou muito
descrente. Não
estou
decepcionado.
Mas você votou
no Lula.
- Votei no
primeiro turno
em Lula. Votei
no Lula na
última hora
porque o Ciro
pirou do meio
para o fim da
campanha e
praticamente
pediu para eu
não votar nele.
Eu votaria no
Serra no segundo
turno, mas
estava fora do
país. Mas o
Brasil precisava
eleger o Lula,
precisava botar
isso pra fora.
Se não
fosse a esquerda
no poder dessa
vez, o Brasil
ficaria
ingovernável. A
esquerda criaria
problema, diria
que seria uma
política
econômica
entreguista, de
direita. O que é
impossível, já
que a política
econômica do
Lula não poderia
ser mais
enquadrada ao
Consenso de
Washington. Não
me arrependo de
ter votado no
Lula. Não tinha
esperança e não
fiquei
decepcionado. Só
acho que não
precisava ter
tanta
incompetência e
achar que tem o
direito de
abusar da
corrupção.
Agora você quer
que ele saia?
- Agora, não.
Sempre quis.
Antes mesmo de
ele ser
empossado.
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