
O cineasta Woody Allen
chega à exibição do filme "Meia-noite em
Paris" no Festival de Cannes, em março de
2011. O trabalho foi descrito por críticos
como "agradável", "um suflê" e "doce".
11/03/2011
REUTERS/Jean-Paul Pelissier
SÃO PAULO (Reuters) - Recorrendo mais
uma vez à magia que inspirou alguns de
seus melhores roteiros, como "A Rosa
Púrpura do Cairo" e "Simplesmente
Alice", e sem por isso chegar à ficção
científica, Woody Allen elege o
improvável Owen Wilson como o passageiro
de uma viagem no tempo, rumo aos
inquietos anos 1920 em sua nova e
deliciosa comédia, "Meia-Noite em
Paris", que abriu o último Festival de
Cannes.
Transformar Wilson, ator de algumas
comédias muito duvidosas, como a recente
"Passe Livre", no intérprete convincente
desta história criativa, aliás, foi a
primeira mágica do diretor.
Na pele do roteirista Gil Pendler, cujo
sonho é trocar Hollywood pela
literatura, o ator assume seu costumeiro
ar entre ingênuo e abobado, que cai bem,
no entanto, a um personagem que descobre
por acaso uma porta fantástica no tempo,
que lhe permite trocar figurinhas com
uma lista invejável de alguns dos
maiores artistas da História. Entre
eles, Scott e Zelda Fitzgerald (Tom
Hiddleston e Alison Pill), Ernest
Hemingway (Corey Stoll), Gertrude Stein
(uma impagável Kathy Bates), Pablo
Picasso (Marcial Di Fonzo Bo), Henri
Matisse (Yves-Antoine Spoto) e Salvador
Dalí (uma breve e inspirada participação
de Adrien Brody).
A porta mágica fica dentro de um
calhambeque Peugeot, no qual Gil embarca
numa noite em que se perdeu pelas ruas
de Paris -- depois de deixar a noiva
Inez (Rachel Adams) sair com outro casal
de amigos, em que um deles é Paul
(Michael Sheen), um pseudo-intelectual
pedante que Gil simplesmente não aguenta
mais ver pela frente.
Cabe a ninguém menos do que a
primeira-dama francesa, Carla Bruni,
abalar a pose de Paul, bem no momento em
que ele montava um discurso com algumas
imprecisões sobre a vida de Auguste
Rodin. Carla interpreta a guia do museu
da obra do célebre escultor, um dos
locais mais belos de Paris, e tem três
cenas no filme, duas ali mesmo e outra
num banco diante da catedral de
Notre-Dame.
Para quem ama Paris, como o diretor e a
maioria da humanidade, o filme é um
prazer desde as primeiras sequências,
que percorrem alguns dos pontos cardeais
da paisagem afetiva da cidade que já foi
descrita como uma festa. Esse foi o
título aliás, de um livro do próprio
Hemingway, um dos expatriados americanos
em Paris que participam ativamente da
fantasia viva de Gil.
É numa personagem fictícia, no entanto,
Adriana (Marion Cottilard), musa de
Picasso, que o filme sintetiza a
fantasia romântica que abala Gil mais
profundamente, levando-o a reavaliar seu
noivado com Inez -- a quem cabe, o tempo
todo, a função de desmancha-prazeres do
noivo sonhador.
Nenhum elemento desta boa receita
funcionaria, no entanto, sem um
equilíbrio entre a beleza, a poesia, o
humor e umas pitadas de discussão sobre
o sentido da vida, de estarmos aqui,
nesta época, sonhando sempre com outra,
geralmente no passado e que idealizamos
o bastante para acreditar que foi
melhor.
Brincando com essa ideia simples,
embalada em várias músicas de Cole
Porter, "Meia-Noite em Paris" soa
afinado como um violino e nunca esquece
de fazer sorrir. Às vezes, faz rir muito
das piadas com um perfume intelectual,
nada pedante, que Woody sempre soube
fazer tão bem.
Desta vez, ele acertou em cheio. Se bem
que, para aproveitar mesmo a série de
boas piadas do roteiro -- entre elas,
uma em que Gil sugere uma ideia
cinematográfica a Luis Buñuel (Adrien de
Van) --, o espectador precisa ter um
mínimo de informação sobre esta rica
galeria de artistas do passado
encontrados neste bem-vindo túnel do
tempo. Nada que o público habitual de
Woody Allen não possa dar conta.
(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)
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