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Javier Bardem chega à estreia de seu filme "Biutiful" em Los Angeles. 14/12/2010
REUTERS/Fred Prouser/Arquivo
SÃO PAULO (Reuters) - Integrante da
pré-lista de nove filmes que disputam as cinco vagas concorrentes ao Oscar
de filme estrangeiro 2011, o drama mexicano "Biutiful", do diretor Alejandro
González Iñárritu ("Babel"), reúne alguns dos temas caros à filmografia do
diretor - como a morte, o espiritualismo, além de um denso mergulho no
problema da exploração do trabalho de imigrantes clandestinos na Europa.
É numa Barcelona sombria que o protagonista, Uxbal (Javier Bardem), luta
pela sobrevivência. Apesar de europeu, ele não tem outra escolha a não ser
tornar-se agenciador do trabalho de imigrantes chineses e africanos para
sustentar seus dois filhos pequenos. A extrema dedicação às crianças, aliás,
é um dos traços que redime este homem extremamente dividido.
Em entrevista por telefone a partir de Los Angeles, onde mora, o diretor
Iñárritu, que corroteirizou o filme, disse à Reuters que "a complexidade da
natureza de Uxbal era justamente o que me interessava nele. Ele não é bom
nem mau. Não é fácil julgá-lo".
A imigração ilegal entrou na história a partir de uma ampla pesquisa, que
incluiu entrevistas do diretor com dezenas de africanos e chineses. Alguns
deles estão no elenco como atores secundários. "Precisava entender como
viviam, sua relação com as populações locais e as autoridades. O trabalho
desses não atores, inclusive, dá ao filme essa verdade, porque é um
documento hiper-realista", afirmou. Para Iñárritu, a imigração ilegal "é a
escravidão do século 21".
A morte interfere na trajetória de Uxbal em mais de um momento, quando ele
se vê diante de uma grave enfermidade, e também pelos riscos que seus
trabalhadores correm diariamente pelas precárias condições de alojamento e
trabalho. Paralelamente, o personagem tem um dom mediúnico, com o qual não
lida muito bem - embora eventualmente e a contragosto dê consultas e receba
dinheiro por isso.
Falando da morte, que entra sempre em seus filmes - como "Amores Brutos"
(2002), "21 Gramas" (2003) e "Babel" (2006) - o diretor explica: "Eu sempre
observo a morte a partir da vida. Mais que a morte, me interessa a vida. E é
ao sentir que pode morrer que Uxbal, paradoxalmente, sente que a vida está
ganhando significado. Ele encontra esse sentido no amor, na compaixão".
Já a espiritualidade é um tema que há muito tempo intriga o diretor.
"Senti-me sempre estimulado pela ideia de vida após a morte. É fascinante
este debate se somos mais do que corpo, sangue e carne, embora eu esteja
sempre em conflito entre crer e não crer. Ainda assim, me interessou colocar
isso no diálogo do filme".
Para este tema, igualmente, o diretor entrevistou diversas pessoas, algumas
das quais tinham conflitos com seu dom, como Uxbal. "Foram estas que me
impactaram", admitiu.
Integrante do trio de diretores e produtores mexicanos de maior circulação
internacional, ao lado de Alfonso Cuarón ("Filhos da Esperança") e Guillermo
Del Toro ("O Labirinto do Fauno"), Inárritu comenta como vê o fato de filmar
em vários países fora do seu: "Interessa-me o ser humano, além da geografia,
do idioma, do lugar onde se filma. Na alteridade, encontro a mim mesmo.
Somos todos similares em tantos aspectos".
Neste momento, o diretor - que deveria ter vindo ao Brasil para lançar "Biutiful"
mas teve que cancelar por problemas pessoais - já está envolvido na escrita
de algumas novas histórias. Mas nada será para já.
"Geralmente levo dois anos num roteiro. Não gosto de análise demais, senão
isto gera paralisia. Gosto de ir encontrando o tom e o ritmo do filme aos
poucos. Filmando, encontro mais este ritmo. Mas na montagem é que o encontro
realmente".
(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)
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