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Aaron Johnson na estreia do filme "O Garoto de Liverpool" no Festival de
Sundance, em janeiro. O filme estreia neste final de semana em circuito
nacional. 27/01/2010
REUTERS/Lucas Jackson/Arquivo
SÃO PAULO (Reuters) - Não é por acaso que
"O Garoto de Liverpool", drama baseado na juventude de John Lennon, termina
ao som de "Mother", música escrita e gravada pelo músico, morto em 1980, que
diz "Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você. Eu a quis, mas você não me
quis".
Segundo o filme, dirigido por Sam Taylor-Wood, a relação do jovem com sua
mãe, com quem foi manter contato apenas na adolescência, beirava o incesto.
Não que eles fossem muito próximos. John (Aaron Johnson) só a reencontra
quando seu tio George (David Threlfall) morre repentinamente. Sua tia Mimi (Kristin
Scott Thomas) o cria com mão de ferro.
A tia encarna o protótipo britânico da repressão, enquanto a mãe, Julia
(Anne-Marie Duff), gosta de festas, música e dança. É ela, aliás, que o
apresenta ao rock, a Elvis e acaba mudando a vida do rapaz.
Julia teve uma crise nervosa quando John era pequeno e ficou sob os cuidados
da irmã, Mimi. Ela não apenas se afastou do filho, mas também de toda a
família. Anos mais tarde, reencontrar-se com a mãe e trazê-la novamente para
dentro de sua vida, representa para John um ato de rebeldia que desaguará na
busca por uma carreira como músico.
Roteirizado por Matt Greenhalgh ("Control") a partir de um livro de memórias
de Julia Baird - irmã de Lennon por parte de mãe - "O garoto de Liverpool"
faz poucas referencias aos Beatles, deixando claro que esse é um filme sobre
John.
Depois de uma certa resistência ao primeiro contato, ele se torna amigo de
Paul McCartney (Thomas Brodie-Sangster), um rapaz com cara de engomadinho,
mas que leva jeito para a música.
Os anos de formação de John e sua iniciação como músico servem como espinha
dorsal na narrativa do filme, mas a rivalidade entre Mimi e Julia - o que
cada uma representa, age e o que espera do rapaz - ganha a frente da
história várias vezes. O que é um pouco frustrante, no entanto, é que o
longa mostra isso apenas pelo ponto de vista do rapaz, reduzindo a
potencialidade das outras duas personagens.
Esse é o primeiro longa da diretora que, apesar de alguns deslizes, mostra
segurança na condução da história, desenvolvimento dos personagens e
trabalho com elenco, sem cair em maneirismos, especialmente visuais.
Interpretando Lennon, Johnson tem a liberdade da criação sem pensar em
copiar - até porque essa fase da vida do músico é nebulosa e pouco
conhecida. No entanto, são as duas atrizes, Kristin e Anne-Marie, que se
sobressaem, até porque, durante boa parte do filme, suas personagens são
mais interessantes e delineadas.
Num momento de sua carreira, Lennon escreveu uma canção chamada "Julia",
para sua mãe. A canção, com sua letra poética e meio delirante, mais parece
uma declaração de amor de um namorado do que a de um filho. Pelo que "O
Garoto de Liverpool" mostra, essa interpretação é bastante pertinente.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb
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