
Paulo Roberto Falcão Treinador do Bahia
O técnico do Bahia, Paulo Roberto Falcão concedeu uma
longa entrevista ao Jornal Folha de São Paulo, publicada
na edição deste domingo. Vale à pena conferi.
O melhor ataque do Brasil no ano é do Bahia, dirigido
por Paulo Roberto Falcão, 58. Desde que chegou para
substituir Joel Santana, levado ao Flamengo no início de
fevereiro, o volante da inesquecível seleção da
Copa-1982 e comentarista da TV Globo por 17 anos (quase
o mesmo período em que fez análise) diz tentar implantar
conceitos do Barcelona na equipe, que não ganha o
Estadual há 11 temporadas --agora, tem nove pontos a
mais que o Vitória, segundo.
Em 14 jogos, foram 51 gols (média de 3,6 por partida). E
a torcida já brinca que o ex-corintiano Souza está acima
de Lionel Messi, pois tem média de tentos superior à do
argentino em 2012 (1,5 x 1,25).
Mas Falcão prefere não bater de frente com o "futebol de
resultado" promovido pelos colegas treinadores. E não
rejeita virar o que foram Platini e Beckenbauer nos
Mundiais de 98 e 2006 após a saída de Ricardo Teixeira.
Folha - Trinta anos depois, ainda passa o filme daquela
eliminação de 82 ou já encheu o saco de falar sobre
isso?
Falcão - Eu acho muito bom quando se fala em 82, sabe
por que? Não lembro na história brasileira uma seleção
que tenha perdido e tenha se falado tanto. Todo mundo
ainda busca: por que que perdeu? Acho que é destino, não
tem uma explicação, até porque os dois times jogaram bem
[Brasil e Itália]. E essa é a grande conquista daquela
seleção. Então, nunca vai me encher porque é motivo de
satisfação lembrar de um time que não ganhou, mas
encantou o mundo inteiro, jogando um futebol brilhante.
Então, é realmente melhor perder jogando bonito do que
ganhar jogando feio?
Sim. Você está muito mais perto das conquistas jogando
bem, independente de ter uma derrota, que faz parte do
futebol, porque vê uma possibilidade de uma chegada boa
no final. Agora, quando ganha jogando mal, a tendência é
que não chegue lá. Você tem que ter discernimento. Me
parece importante, quando está ganhando, saber que
também tem defeito. E procurar corrigir. Como também tem
que ter a capacidade de entender que, quando vai mal e
ganha, saber tirar as coisas positivas disso. Não dá
para dizer que quando perde está tudo ruim, quando ganha
está tudo bem. Os dois têm defeitos porque não somos
perfeitos. Ninguém é perfeito.
A ideia é mesmo implantar conceitos do Barça no Bahia?
O Barcelona tem um conceito de 30, 40 anos, e eles jogam
assim, mesmo nas categorias de base, de posição, de
tocar a bola, de se aproximar e tal. A gente nem sabe se
vai conseguir, mas eu tenho uma ideologia que, para mim,
futebol tem que ser imposição, você tem que se impor em
cima do adversário. E você tem que ter, acima de tudo,
uma compactação. O que é compactação? O time tem que ser
uma coisa só. Defesa, meio-campo e ataque próximos um do
outro. Porque você se defende melhor e ataca melhor. Por
que é que o Barcelona, na minha avaliação, é tão bom?
Montar um time com jogadores de qualidade com dinheiro
no bolso não é difícil. Você compra quem você quer,
porque você dá a bola e eles resolvem. O difícil é você
montar um time com essas qualidades do Barcelona que
seja tão bom ou melhor sem a bola. É a coisa mais
definitiva do Barcelona. Ele consegue ser muito bom sem
a bola. Aperta a saída, e com jogadores como Messi,
Iniesta, Fábregas, Xavi. Isso para mim é o diferencial
do Barcelona, e isso é o que gosto. Sem a bola, temos
que tirar ela do adversário. Não podemos esperar o
adversário errar. Nós temos essa cultura de ficar
olhando. Não. Temos que apertar e obrigar o adversário a
fazer aquilo que a gente quer. Claro que é difícil.
Claro que precisa tempo. O Barcelona tem todo esse tempo
de filosofia. Mas é algo que miro tentar tirar uma
situação assim.
Até onde esse time pode ir?
Nosso objetivo aqui é o Baiano [clube não conquista
desde 2001]. Claro que vamos focar também a Copa do
Brasil, mas hoje esse é nosso foco. É difícil, a gente
está com uma rotina de jogos absurda, os jogadores
sentem, cansam, estamos cheios de lesionados, porque é
jogo domingo e quarta... e nesse calor. Por isso, esse
desempenho em um mês e meio foi muito além do que eu
imaginava. Mas ainda falta muito. Muito. Essa é uma
coisa importante, e eles sabem disso.
E o panorama geral do futebol brasileiro? Também vê uma
crise, como muitos já falam?
Acho que muita gente visou o jogo Barcelona x Santos e
tomou por base. Eu digo sempre uma frase: nós
brasileiros somos humildes em tudo, somos um povo
humilde, maravilhoso. A única coisa em que somos
arrogantes é no futebol. A gente acha que é o melhor do
mundo, e não é. Não é. Temos potencialidade de ser, mas
a gente tem que ter a humildade para entender que hoje
tem times e seleções melhores. Se não tiver, nunca vamos
crescer. Todos vimos um espetáculo do Barcelona,
reconhecido pelos próprios jogadores do Santos. Ali
deflagrou [esse sentimento], e as pessoas começaram a
ficar muito preocupadas. Porque o Barcelona fez aquilo
que normalmente o Brasil faz. Mas aquilo é uma
ideologia, todo mundo não é o Barcelona. Acho que se
exagerou muito, mas essa é a realidade. Nós não somos
humildes no futebol.
Nossos treinadores, a forma com que as equipes estão
atuando, também não têm culpa?
Acho que cada um tem que jogar de acordo com as
características de seu time, as características daquilo
que imagina, que seja o ideal para seu time. Então, eu
não tenho como criticar o trabalho de ninguém, até
porque seria falta de ética. Eu acho que às vezes uma
jogada aérea é uma jogada forte. Mas é evidente que você
não pode só ter aquilo. Às vezes, você não consegue.
Perde-se muitos jogadores... Mas não podemos achar que
está tudo errado porque houve esse Barcelona 4x0 Santos.
E a seleção brasileira?
Acho assim... Eu gosto muito do Mano [Menezes], é um
cara que se preparou para isso. Acho que o foco dele tem
que ser acertar o time em 2012, para entrar 2013 firme,
em condições de fazer uma boa Copa das Confederações.
Acho que esse é o plano dele, e acho que está correto.
Só que tem que ter um pouco de paciência, porque as
coisas nem sempre acontecem como a gente planeja.
Ainda pensa em voltar?
Não, não, não... Aquele trabalho [1990-1991] foi de
renovação, fiquei feliz que apareceram jogadores como
Cafu, Leonardo, Mauro Silva, Márcio Santos, esses caras
todos, que depois se sagraram campeões em 94. Fiquei
muito feliz com uma declaração do Parreira [técnico na
época], que a gente tinha feito um trabalho que levaria
anos para fazer, de mostrar novos jogadores. Eu não
penso, assim, não. Estou muito focado aqui, muito feliz,
tendo um trabalho com eles muito legal, um
reconhecimento do torcedor muito bom.
Como era a relação com Ricardo Teixeira (então,
começando na presidência da CBF)?
Fiquei um ano lá, nunca se meteu em nenhum momento em
escalação, em convocação. Eu tive naquele ano uma
relação muito boa com ele. A saída foram duas ou três
exigências que eu tinha que cumprir, mas aí eu não
concordei, por isso não renovou. Meu contrato era de um
ano. Era de um ano porque, na época, o Ricardo não tinha
todo essa força política que adquiriu ao longo dos anos,
tinha nova eleição em seguida, não sabia se ia ficar,
estava começando no futebol.
Sem ele, cronistas esportivos como Juca Kfouri,
colunista da Folha, chegaram a citar seu nome para
assumir o COL (Comitê Organizador da Copa-2014). O que
acha?
Você me pegou de surpresa, é uma coisa que não dá para
falar agora, assim...
Acha que exemplos como os de Platini e Beckenbauer à
frente das Copas na França e na Alemanha, em vez de
cartolas, soam melhor?
Tudo quando se tem competência é possível. Não é porque
foi jogador que tem competência para ser presidente de
confederação ou comitê. Não é porque nunca jogou bola
que não tem competência de ser treinador. Acho que as
coisas não são assim, todo mundo pode trabalhar desde
que se tenha competência. Não sei se as coisas seriam
maravilhosas, não sei. Agora, que existe a vantagem de
quem conhece, que trabalha no campo, que tenha uma
relação, é verdade. Se você encontrar um profissional
com a competência e a inteligência de poder administrar
alguma coisa mais importante do futebol, seria excelente
se ele já também tivesse sido jogador. Seria excelente.
Mas não significa que se o cara nunca jogou bola, não
sabe administrar, porque aí teríamos de perguntar: para
comentar futebol, teria de ter jogado bola?
E o seu caso? Acha que a carreira na TV ajudou a de
agora?
Olha, eu fiquei muito tempo trabalhando na imprensa, 17
anos na Globo, mas comecei esse trabalho antes lá em
Roma [após se aposentar dos gramados]. Então foi um
trabalho que eu tive muito contato com muitos
treinadores, vi muitos treinos, Copas do Mundo, vi
trabalho de treinos das seleções em 98, 2002 e 2006,
então isso me ajudou muito. E me ajudou muito também a
entender às vezes algumas coisas que estão acima do
treinador, dos jogadores. Eu passei por tudo.
Acha que a crítica supervaloriza o trabalho de vocês?
Às vezes se exagera muito, porque é uma coisa
apaixonante, todo mundo acha que entende, mas muitos não
entendem. Treinador, de modo geral. tem de olhar o todo.
Não é uma ou duas coisas. É um trabalho muito difícil,
muito desgastante, porque você mexe com a emoção das
pessoas. Você mexe com o amor que se tem a um clube,
você mexe com 25 profissionais heterogêneos, cada um
pensa de uma maneira, você tem que fazer para tudo se
encaminhar para um lado só, não é uma coisa simples.
Você tem que ter psicologia de grupo. Não é uma coisa
assim que é barbada. Não, realmente é um trabalho de
dedicação total, e não só quando estamos no campo. Em
casa, também. Você está sempre pensando, você não tem
como se desligar.
Na parte final do ano passado, você viajou pela Europa e
se encontrou com alguns treinadores. Como foi isso?
Na realidade, eu estava há muito tempo para fazer isso.
Quis conversar com as pessoas que eu respeito, para
saber o que eles fazem, foi um intercâmbio. Conversei
primeiro com o Sachi [Arrigo], que é um profissional que
sempre respeitei, foi o treinador que mudou um pouquinho
a história do futebol italiano. O Milan e a seleção de
94. Ele revolucionou. Quando eu cheguei na Itália, todos
os times jogavam homem a homem, na chamada retranca. O
Sachi implantou a marcação por zona, com muita pressão e
duas linhas de quatro, então é um cara que respeito.
Hoje é o diretor-técnico do centro onde se formam os
treinadores do país. Falei também com o Prandelli [Cesare],
que é o atual treinador da seleção italiana, também uma
figura excepcional sobre futebol, sobre marcação. Fui
ver como é que ele organiza, comparar com o Brasil.
Falei longamente com ele. E a última semana eu passei lá
no Real Madrid, com o Mourinho [José], vendo os
trabalhos dele, como orientava, conversando com todo
mundo, enfim. Com o Guardiola [Pep, do Barcelona],
nossas agendas não bateram. Mas acho que o profissional
tem que fazer isso sempre que possível. Não significa
que vai se fazer o que se faz lá. Mas temos que saber
até para não fazer. Tem que estar acompanhando para ver
se vale a pena.
Antes disso, houve o retorno à profissão no Inter, em
abril. Afinal, o que aconteceu ali? Parecia ter tudo
para dar certo, onde você é ídolo...
Deixa eu te dizer... Eu já falei tanto disso que eu...
Eles [diretoria] sabem, eu sei o que aconteceu, mas eu
acho que já faz tempo, já falei tudo que tinha que
falar, não vou mais voltar nesse assunto, não. É chato.
Não foi o trabalho. Foram outras coisas, ali.
Acha que existiu preconceito quando você foi anunciado
no Bahia? Um catarinense que sempre morou em Porto
Alegre e na Itália, que usa terno e bebe vinho, não
tinha nada a ver com Salvador?
Nada, nada... Eu sempre respeito as opiniões, mas não
tenho assim nada a dizer ao contrário. Não vai se
resolver nada se disser alguma coisa relacionada a isso.
As pessoas têm o direito de dizer o querem, de pensar o
que quiserem, mas sempre a gente tem que pensar que
depois vão ter de rever as posições. Nunca pensei sobre
isso. E sempre passei as férias aqui.
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Futebol Baiano