
Líder do MST, João
Paulo Stédile, fala
com a mídia no Rio
de Janeiro em 2005.
Stédile disse que o
Brasil viverá um
aumento das
ocupações de terra
se a petista Dilma
Rousseff vencer as
eleições e um
crescimento da
violência no campo
caso o tucano José
Serra seja o
escolhido.
28/04/2005
|
SÃO PAULO
(Reuters) - O
Brasil viverá um
aumento das
ocupações de
terra se a
petista Dilma
Rousseff vencer
as eleições e um
crescimento da
violência no
campo caso o
tucano José
Serra seja o
escolhido.
O diagnóstico é
do economista
marxista João
Pedro Stédile,
fundador do
Movimento dos
Trabalhadores
Rurais Sem Terra
(MST), maior
organização
social do país.
Ele explica que
a intensificação
de atos num
eventual governo
do PT ocorre
justamente pelas
afinidades
históricas entre
os dois grupos.
"Um operário,
diante de um
patrão
reacionário, não
se mobiliza. Com
Dilma, nossa
base social
perceberá que
vale a pena se
mobilizar, que
poderemos
avançar, fazendo
mais ocupações e
mais greves",
disse ele em
entrevista à
Reuters, a
primeira desde o
início do
processo
eleitoral.
"Se o Serra
ganhar, será a
hegemonia total
do agronegócio.
Será o pior dos
mundos. Haverá
mais repressão
e, por isso,
tensão maior no
campo...A
vitória dele é a
derrota dos
movimentos
sociais",
acrescentou.
Por essa razão,
a opção
"majoritária" do
movimento é
apoiar a
ex-ministra--mesmo
que, nos últimos
anos, justamente
num governo
considerado
amigo, o MST
tenha se
enfraquecido e
chegado à
conclusão de que
"o agronegócio
venceu".
"Lula não fez
reforma agrária,
mas uma política
de
assentamento...Metade
dos números do
governo é
propaganda",
afirma Stédile.
Segundo dados
oficiais, quase
1 milhão de
famílias foram
instaladas nos
últimos sete
anos em terras
cedidas pela
União ou
compradas do
setor privado
pelo valor de
mercado.
Menos de 10 por
cento dos 47
milhões de
hectares
destinados a
este fim foram
obtidos por meio
de
desapropriações
de terras
improdutivas ou
griladas,
mecanismo
defendido pelo
movimento.
O modelo adotado
por Lula custa
caro. Na região
Sul, uma das
mais caras do
país, assentar
uma família
exige o
desembolso de
126 mil reais. A
média nacional é
de 65 mil reais,
conforme cálculo
no Instituto
Nacional de
Colonização e
Reforma Agrária
(Incra).
Apesar de
algumas
decepções, João
Pedro Stédile
descarta apoiar
um candidato de
extrema
esquerda. "Não
temos
alternativa."
"É como se você
percebesse que
seu time pode
cair pra segunda
divisão e faz o
que for possível
para vencer o
campeonato."
CRIMINALIZAÇÃO
O MST vive um
período difícil
e se queixa de
ter sido alvo de
criminalização
pela imprensa e
por "forças de
direita" nos
dois mandatos do
PT. Stédile
raramente dá
entrevistas.
"A imprensa, que
antes nos
tratava como
coitadinhos e
até nos
elogiava, passou
a nos dar um pau
nesses oito
anos, passou a
ser arma da
direita para nos
estigmatizar."
O movimento
endossou a
candidatura de
Lula em 2002
apostando numa
administração à
esquerda.
Frustrou-se com
a continuidade
do modelo
macroeonômico
implantado por
Fernando
Henrique Cardoso
(PSDB). Voltou a
dar um apoio
tímido em 2006,
momento mais
difícil para o
PT com a crise
do mensalão.
Após a vitória
de Lula naquelas
eleições, as
relações ficaram
estremecidas.
Nesse período, a
organização
enfrentou três
CPIs no
Congresso e
perdeu diversos
repasses
financeiros de
convênios
federais.
Partidos como
PSDB e
Democratas
acusam o governo
de patrocinar
ocupações de
terra com
dinheiro
público.
"Não somos
puxa-saco nem
pau-mandado de
ninguém",
enfatiza.
CUTRALE
Epiódios
controversos
também tiraram
capital político
da organização,
como a
destruição por
grupos sem-terra
de pés de
laranja de uma
das fazendas da
empresa Cutrale.
As imagens
flagradas pela
TV arrancaram de
Lula duras
acusações de
prática de
"vandalismo".
"Aquilo foi um
erro
tático...Mas
aquele ato
impensado foi
usado contra nós
como se
tivéssemos
matado uma
criança",
rebateu o líder
sem-terra. "Se
fôssemos
radicais,
estaríamos
botando fogo em
tudo."
O apoio informal
à Dilma --que
assegurou
durante a
campanha que não
vai tolerar
"atividades
ilegais" do
movimento--, e
não a
presidenciáveis
ideologicamente
mais próximos ao
MST, como Plínio
de Arruda
Sampaio (PSOL),
vem de uma
avaliação
pragmática de
que esses nomes
não foram
capazes de
aglutinar forças
populares.
Para Stédile,
Marina Silva
(PV), assim como
os outros
candidatos de
esquerda, não
devem receber
mais que 10 por
cento dos votos
sem-terra. "Ela
expressa as
forças sociais
apenas da classe
média do Rio de
Janeiro e de São
Paulo."
(Edição de
Isabel Versiani)