ACAR (Reuters) - Crimes cometidos no Congo pelo
Exército de Ruanda e por rebeldes congoleses durante a década de 1990
podem ser classificados como genocídio, segundo um relatório ainda não
divulgado da Organização das Nações Unidas (ONU), uma acusação que deve
causar tensão entre Ruanda e a entidade.
Um especialista em Congo disse que os diplomatas estão discutindo a
conveniência de incluir a acusação, altamente delicada, na versão final
do documento, que detalha crimes cometidos no antigo Zaire entre 1993 e
2003.
Esse período inclui a queda do ditador Motubu Sese Seko e um conflito de
cinco anos envolvendo seis exércitos estrangeiros, inclusive o de
Ruanda, dominado pela etnia tutsi. Milhões de pessoas morreram no
conflito, a maioria de fome e doenças evitáveis.
Após reprimir o genocídio de 800 mil tutsis em 1994 em Ruanda, o
Exército desse pequeno país invadiu o Congo, sob a justificativa de
perseguir rebeldes genocidas da etnia hutu que estariam refugiados ali.
Nesse processo, as forças de Ruanda contribuíram com a ascensão das
forças de Laurent Kabila ao poder no Congo. Ambas as forças foram
acusadas de diversos abusos contra soldados e civis hutus no Congo.
"Os ataques sistemáticos e disseminados (contra hutus no Congo)
descritos ... revelam um número de elementos danosos que, se provados
diante de uma corte competente, poderiam ser classificados como crime de
genocídio", disse o relatório, ao qual a Reuters teve acesso na
quinta-feira.
"O amplo uso de armas brancas ... e os massacres sistemáticos de
sobreviventes depois de acampamentos (hutus) serem tomados mostram que
as numerosas mortes não podem ser atribuídas aos infortúnios da guerra,
nem equiparadas a danos colaterais", afirma o texto.
Segundo o jornal francês Le Monde, Ruanda ameaçou retirar seus soldados
da força de paz no Sudão por causa dessas acusações. A Reuters não
localizou nenhuma autoridade ruandesa que pudesse comentar.
Um porta-voz do Acnur (agência de refugiados da ONU), que redigiu o
relatório de 545 páginas, disse que o documento vazado era um esboço,
ainda contendo erros.
O texto detalha cerca de 600 crimes sérios, cometidos por várias facções
de diversas nações, mas o autor Jason Stearns, especialista em Congo,
disse que Ruanda aparece pior.
"A acusação de que o Exército ruandês poderia ser culpado de atos de
genocídio contra refugiados hutus irá macular fortemente a reputação de
um governo que se orgulha de ter levado ao fim o genocídio contra os
tutsis em Ruanda", disse ele.
O relatório final deve ser apresentado na semana que vem pelo Acnur.
(Reportagem adicional de John Irish, em Paris; e de Stephanie Nebehay,
em Genebra)