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O papa Bento 16 acena ao chegar para a celebração de uma missa na Basílica de
São Pedro, no Vaticano, 21 de novembro de 2010.
REUTERS/Tony Gentile
CIDADE DO VATICANO (Reuters) - O papa
Bento 16 diz em um livro prestes a ser lançado que não hesitaria em
tornar-se o primeiro pontífice a renunciar por vontade própria em mais de
700 anos, caso se sentisse sem condições "físicas, psicológicas e
espirituais" de liderar a Igreja.
Com franqueza espantosa, Bento, de 83 anos, aventa a possibilidade de algo
em que as autoridades da Igreja não gostam de falar, porque poderia
desencadear discussões doutrinais indesejadas.
Intitulado "Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e o Sinal dos Tempos", o livro já
deu manchetes em todo o mundo por causa da abertura cautelosa manifestada
nele pelo papa em relação ao uso da camisinha para impedir a propagação da
aids.
Mas o livro, uma entrevista do papa ao jornalista católico alemão Peter
Seewald, também contém muitas reflexões pessoais sobre a saúde de Bento, sua
rotina diária e seu futuro.
"Sim, se um papa percebe claramente que não tem mais condições físicas,
psicológicas e espirituais de encarregar-se dos deveres de seu cargo, ele
tem o direito e, sob certas circunstâncias, a obrigação de renunciar", diz
Bento.
O último pontífice a renunciar por vontade própria foi Celestino 5, em 1294,
após apenas cinco meses de pontificado. Gregório 12 abdicou a contragosto em
1415 para encerrar uma disputa com um candidato rival à Santa Sé.
No início deste ano, quando o Vaticano esteve envolvido em uma nova onda de
escândalos de abusos sexuais, houve chamados para que Bento renunciasse, mas
ele diz no livro que não "fugiria" em um tempo de crise.
"É possível renunciar em um momento de paz ou quando simplesmente não se tem
condições de continuar", diz ele.
CANSAÇO FÍSICO
Bento 16 parece gozar de saúde relativamente boa, mas admite no livro que
sente suas forças diminuindo.
"É claro que me preocupo com isso às vezes e me pergunto se vou conseguir
seguir adiante, desde o ponto de vista puramente físico", diz ele, falando
do esgotamento físico provocado por suas viagens.
Na lei canônica há um dispositivo que prevê a renúncia de um papa, mas ele
nunca foi aplicado. O dispositivo prevê que um papa pode renunciar, mas
precisa fazê-lo por sua livre vontade, e não é necessário que sua renúncia
seja aceita por ninguém.
Contudo, o fato de a medicina moderna possibilitar a extensão da vida
suscita a possibilidade de que um papa acometido do mal de Alzheimer ou que
sofra um derrame, por exemplo, possa ficar incapacitado de decidir.
Alguns papas anteriores cogitaram em renunciar, mas esse fato só veio à tona
após sua morte. Já Bento parece estar deitando as bases para tal
possibilidade.