
Kristen
Bell, Cher, Christina Aguilera e Cam Gigandet em exibição do filme "Burlesque",
em Paris. 15/12/2010
REUTERS/Jacky Naegelen/Arquivo
SÃO PAULO (Reuters) - A vida de Christina
Aguilera daria um filme triste, mas com final feliz. A jovem filha de mãe
solteira, que sofre com a figura de um pai violento e enfrenta todas as
dificuldades para fazer sucesso na carreira artística, é uma personagem e
tanto para Hollywood, principalmente nestes tempos sombrios de crise
econômica, em que os norte-americanos procuram esquecer as agruras do
dia-a-dia no escuro da sala de cinema.
"Burlesque", de Steve Antin, estreia de Aguilera como atriz, é construído
com alguns desses ingredientes. Mesmo que Ali, a personagem interpretada
pela cantora, não tenha enfrentado tantas dificuldades, sua alma está
impregnada pelo sofrimento de quem lhe empresta o corpo.
A loirinha divertida e repleta de planos, que joga para o ar o avental de
garçonete num bar em Iowa, para viver o sonho de ser cantora em Los Angeles,
é a história de muitas jovens. Mas nem todas chegaram onde Aguilera e Ali
aportaram.
Sabendo um pouco do passado da cantora, não há como não sentir simpatia por
Ali. Mesmo trabalhando como garçonete no Burlesque, um bar de strip-tease em
Los Angeles (emprego que conseguiu na marra), a incansável Ali não sossega
até convencer a proprietária, Tess (a cantora Cher, afastada do cinema desde
2003, quando fez "Ligado em você"), a contratá-la como dançarina de sua
companhia, que diverte os frequentadores do bar.
O passo seguinte é convencê-la de que pode cantar. Só a personagem de Cher
tem esse privilégio. As demais coristas apenas interpretam os números
coreografados por Tess com figurinos de Sean (Stanley Tucci, de "O diabo
veste Prada), numa ambientação que não disfarça ser inspirada em "Cabaret"
(1972), de Bob Fosse.
Mas "Burlesque" não é "Cabaret" nem tampouco "Moulin Rouge", de Baz Luhrmann.
Nem Aguilera é Liza Minnelli ou Nicole Kidman.
Tudo isso conta contra esse musical de Steve Antin. Seu filme não mergulha
nos dramas e desafios dos personagens. Tess também é uma sofredora, pois
está afundada em dívidas e prestes a perder o clube. O diretor prefere
seguir a máxima de que o show tem de continuar, apesar de tudo.
E, aqui, o problema é que o show se estende por infindáveis 116 minutos, com
a apresentação de sucessivos números de dança, que servem de aperitivo para
o momento mais aguardado, quando Aguilera finalmente será autorizada a
cantar. E ela consegue esse privilégio de forma inesperada, ao entoar à
capela um blues de Etta James ("Tough Love"), com uma voz potente, que deixa
a plateia comovida.
A boa recepção à performance da cantora serve de estímulo para Tess
reformular os números musicais de seu cabaré, colocando Ali como
protagonista. É a gota d'água para Nikki (Kristen Bell), a competitiva
dançarina que era destaque da companhia, mas caiu em desgraça por causa da
bebida e agora vê em Ali uma rival perigosa. Mas a loirinha não quer
prejudicar ninguém, só pensa em fazer o que mais gosta: cantar.
Enquanto os números musicais prosseguem, ainda há tempo para criar uma
história romântica para Ali, assediada por um construtor e frequentador do
bar, Marcus (Eric Dane (de "Grey's Anatomy"), e cobiçada pelo garçom Jack (Cam
Gigandet), com quem divide o apartamento onde mora.
"Burlesque" venceu um Globo de Ouro - melhor canção original ("You haven't
seen the last of me").
(Luiz Vita, do Cineweb)
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